PALAVRA – POR GÉSSICA PITA

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Deito-me. Quarto escuro, a janela aberta: lá fora, nada claro. Sombra de tempo, noturna sombra de vida e tempo, espaço e sonho, e brisa – agradável noite em noites.
Tem um cheiro de setembro passado no ar.

Exatamente em um clima assim, numa noite como esta, talvez por este mesmo horário, setembro passado, em minha cama, deitada, eu a mim mesma questionava, erma de sentido – espaços em sombra e luz, à meia luz da ternura crescente de um quarto crescente, tudo crescia – e a resposta era o tempo que era nada e tudo.

E eis o parto. E ei-la a mulher de frente para o tempo do tempo, desnuda e fiel na prece de ser o que nem se sabia sendo: eis o parto.

O parto a que se dava por si só a minha vida. Um parto que me colocava – pela primeira vez – no real da existência, como nunca antes. Um parto que se abria ao desconhecido de ser e me colocava no meio de um caminho – que nem se era ainda caminho. E eu não sabia o que viria, desconhecida no desconhecimento. Porque a via era por si mesma desconhecida. E no desconhecimento eu nascia, sem prenúncios.

Nesses tempos, bem lembro, a vida estava fora da vida e ao mesmo tempo tão dentro. Havia o medo, mas tinha a coragem.

No entanto, você me parecia inalcançável.

Mas, exatamente nesse inalcançável era que eu conseguia alcançá-lo. Havia em tudo um mistério, desde o início: um rugir mudo impregnado nas orquídeas adormecidas, um abafado grito estridente e surdo por entre os aromas de lavanda, mirra e citronela. Perfumes de rosas diante do altar.

A minha vida, o meu ser – todo o meu coração ardente de vida e morte, renascia.

Se esse mistério pudesse, nas coisas, se tornar visível, ele se disporia nas flores que emolduram a vida, se derramaria nos interstícios dos silêncios, se dispersaria nos ventos noturnos, viria como benção em cada soar dos sinos, mostraria sua ternura e nobreza em cada orvalho da manhã, pousaria leve no peito que contém toda a graça, beijaria as suas fronte e face iluminadas de sol e graça fatalíssima.

Difícil é fazer destas palavras imagens e recortes de tempos nos tempos que se impregnam, se desenham, se fixam nas telas, em algum quadro, pintura emoldurada e fixa na parede de um salão infinito, com toda a graça… Mas é grande demais, imensurável. Não consigo, não consigo. Só a noite e a janela, só há a cama e o aroma de você sendo o mistério todo da vida.


Géssica Pita é aluna da Universidade Federal de Rondônia 
Campus de Guajará  - Mirim 

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